N.O. Way avalia "Of Factory New York" e "Collaborator".

31/07/2014 22:17

Enquanto não há sequer sinal de fumaça sobre o novo álbum de canções inéditas que o New Order vem preparando desde o ano passado, a turma ligada em itens extra-catálogo tem pelos menos dois aperitivos para se deliciar: as compilações Of Factory New York e Collaborator, ambas lançadas este ano pelas mãos de James Nice, o escritor e produtor cultural que reativou a Factory Benelux, a licenciada da Factory Records na década de 1980 para os mercados de Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo, e que também foi o criador da gravadora LTM Recordings, que se notabilizou não apenas por ter reeditado em CD vários álbuns de artistas do cast da Factory nos anos noventa, como também de bandas de outras gravadoras independentes.

E nosso review começa justamente com o sistema de mail order da Factory Benelux. Imediatamente após o lançamento dos dois álbuns, resolvemos encomendá-los diretamente na gravadora seguindo as instruções contidas em seu site oficial: "Para fazer um pedido, simplesmente escreva para info@factorybenelux.com" (sendo que, após a realização do mesmo, o pagamento deve ser feito via Pay Pal). Sucessivas mensagens foram enviadas para o endereço eletrônico indicado desde o dia 16 de junho, porém não houve resposta para nenhuma delas. Um contato nos forneceu um e-mail alternativo, member@ltmpub.freeserv.co.uk, que seria a conta para pedidos de compras de títulos da LTM Recordings. Sem sucesso também. Para a nossa felicidade, os dois títulos se encontravam disponíveis na Amazon inglesa. Então, não teve jeito: tivemos que apelar para o gigante corporativo em vez de privilegiar o independente/alternativo. Fazer o que? Bem que tentamos.

Nosso pedido totalizou três itens: duas versões de Of Factory New York (CD + LP duplo) e uma de Collaborator (CD). Os compact discs vieram em capas/embalagens comuns - jewel case - enquanto que o capão do vinil é no estilo gatefold (dobrado no centro). Tudo veio devidamente lacrado/selado e com um adesivo fixado por cima dos plásticos nos cantos superiores esquerdos para indicar o conteúdo das compilações - principalmente o que interessa para os fãs do New Order. Em Of Factory New York, o adesivo diz "Um álbum beneficente para Michael Shamberg: Clássicas faixas da Factory por A Certain Ratio, Cabaret Voltaire, Section 25, Quando Quango e mais + faixa exclusiva do New Order". Já o que vem com Collaborator é mais sucinto: "Mark Reeder / Collaborator: Bernard Sumner, The Pet Shop Boys, Sam Taylor-Wood, Westbam, Marnie, Blank & Jones etc". Olhando só os disclaimers, parece pouco New Order para tanta encomenda. Mas as aparências enganam...

Of Factory New York, como já foi adiantado no parágrafo acima, é um álbum beneficente. Foi lançado com o objetivo de arrecadar dinheiro para o seguro médico que cuida de Michael Shamberg, um sujeito cuja história pessoal se liga à do New Order e à da Factory Records. Shamberg era o representante da Factory em Nova Iorque, o que o tornou responsável por lançar em solo yankee discos do cast da gravadora de Tony Wilson. Além disso, Michael era film-maker e acabou se tornando produtor da maior parte dos vídeos do New Order. Desde 2006 Shamberg sofre com severos problemas de saúde decorrentes de uma mutação mitocondrial, o que vem levando vários ex-Factory a ajudá-lo. Todos os artistas que participaram dessa compilação doaram suas gravações e abriram mão de receber qualquer centavo das vendas do álbum em favor de Michael.

   
Imagens do CD e do LP duplo de Of Factory New York

Bom, mas com relação ao disco... A arte de capa de Of Factory New York foi produzida por Lawrence Weiner tendo como base o pôster de um show do New Order no Paradise Garage (Nova Iorque) no dia 07 de julho de 1983. No encarte, tanto do vinil quanto do CD, temos um texto escrito por James Nice, que inclusive está reproduzido no site da Factory Benelux, além de algumas fotos, dentre elas uma do New Order feita por Anton Corbijn. No que diz respeito ao material contido no álbum, pode-se dizer que não há nada que possa ser considerado inédito. Mesmo a contribuição do New Order, a tal "faixa exclusiva", não é, a rigor, uma novidade. Trata-se de um registro ao vivo de "Your Silent Face" feito no Irvine Meadows, Califórnia, no dia 16 de junho de 1989. De fato esse fonograma nunca havia sido lançado oficialmente, bem como todo o restante do show, mas os caçadores de bootlegs de plantão já o conheciam de longa data. O lado bom é que a gravação, que já tinha uma qualidade acima da média para um registro pirata, ficou com um som ainda melhor depois de "legalizado". Para fechar, vale destacar que em Of Factory New York temos ainda a participação de Bernard Sumner (a voz e a guitarra do New Order) em outras quatro faixas: em três delas como produtor - "Love Tempo" (Quando Quango), "Looking From a Hilltop Megamix" (Section 25) e "Reach For Love" (Marcel King) - e uma nas programações - "Cool As Ice" (52nd Street).

Collaborator é uma coleção de parcerias e remixes do DJ e produtor musical britânico (mas radicado em Berlim) Mark Reeder. Para quem não sabe, Reeder é amigo de Bernard Sumner desde os tempos do Joy Division e foi o New Order que influenciou sua guinada para o lado da chamada "EDM" (electronic dance music) ainda nos idos da década de 1980. Aliás, a amizade entre Reeder e Sumner rendeu muitos frutos musicais - e um bom punhado deles podem agora ser saboreados em um único CD graças à iniciativa da Factory Benelux de reuni-los neste indispensável disco. Vale destacar que Mark também foi o "homem da Factory na Alemanha", como foi bem lembrado por John Cooper (editor do site Cerysmatic Factory, dedicado à memória da Factory Records) na entrevista realizada com o DJ/produtor incluída no encarte do CD.

   
   
Imagens do CD Collaborator

A dobradinha Sumner/Reeder mais antiga a figurar em Collaborator é "You Hurt Me (Radio Edit)", uma faixa de 1985 do Shark Vegas (antiga banda de Mark) com participação de Bernard na guitarra e, também, como produtor. Mas esse item não passa, digamos, de uma excentricidade para fãs mais obsessivos. Para aqueles que ainda não chegaram a esse ponto, existem coisas bem mais atraentes. Dentre elas, remixes feitos por Reeder para duas canções do Bad Lieutenant, projeto de Sumner com os guitarristas Phil Cunningham e Jake Evans após o rompimento do New Order original em 2007: "Sink or Swin (Rettunsgring Radio Mix)" e "Twist of Fate (Synth of Fate Remix)". Não são necessariamente remixes inéditos, mas anteriormente estavam disponíveis apenas para o formato DMD (digital music download) na iTunes Store. 

O disco também contém remixes de material alheio no qual Sumner aparece como vocalista convidado. Este é o caso de "Miracle Cure (Hardest Soul Remix)", de Blank & Jones, e "She Wants (Old School Remix)", do DJ alemão Westbam. Mas certamente a cereja do bolo, ou melhor, o cobiçado Santo Graal que faz Collaborator se tornar um item OBRIGATÓRIO na coleção de um fã do New Order é o lançamento oficial, pela primeiríssima vez, da "Demo Mix" original de "Crystal", faixa que hoje conhecemos como parte do álbum Get Ready (2001). Trata-se de uma versão anterior à (definitiva) gravação do New Order, na qual um DJ parceiro de Reeder, o húngaro Corvin Dalek, mixou uma trilha vocal que Sumner havia gravado sem acompanhamento instrumental (e dado de presente ao seu velho amigo) com uma base techno/trance que estava engavetada desde 1997. Uma história rocambolesca envolvendo interesses comerciais da London Records, gravadora do New Order, impediu que essa versão fosse lançada. No final das contas, "Crystal" foi regravada pelo New Order e acabou se tornando num dos seus grandes clássicos. Já a versão original de Corvin Dalek e Mark Reeder ficou enterrada e fossilizada durante todo este tempo. A história completa nós já contamos aqui.

Como se vê, os dois discos possuem atrativos com diferentes níveis de apelo para a família de fãs do New Order, principalmente para aqueles que têm particular predileção por Bernard Sumner, seja como vocalista, seja como produtor. E é inegável que Collaborator é o item mais "recheado" dos dois, o que lhe dá uma pequena vantagem frente a Of Factory New York. Mas "noves fora" o que é da conta dos aficcionados pela banda, as duas compilações reúnem diversas outras faixas de alto nível para quem gosta de indiepop e música eletrônica alternativa. Valem cada, portanto, libra esterlina investida.